O Paradoxo da Oracle: Inteligência Artificial de Peso, a Confiança de Wall Street e a Dança das Ações

O mercado financeiro acordou meio apreensivo nesta sexta-feira. Com o VOO, ETF da Vanguard que espelha o índice S&P 500, operando com uma leve alta de 0,51% no pré-mercado, a tensão no ar é palpável. Todo mundo de olho nos desdobramentos geopolíticos entre EUA e Irã e roendo as unhas à espera dos novos dados de desemprego e da folha de pagamento de abril. É exatamente nesse cenário macroeconômico confuso e de expectativas travadas que a Oracle vira o centro das atenções, puxada por um turbilhão de movimentos institucionais, reestruturações tecnológicas e vendas de executivos que contam uma história bem peculiar.

A Visão dos Analistas e o Fator IA

O analista Adam Shepherd, da Arete, acabou de colocar lenha na fogueira ao elevar a recomendação da empresa de neutra para compra, jogando o preço-alvo para expressivos US$ 255. A tese por trás dessa jogada é bem pé no chão. Para Shepherd, as atuais restrições de oferta estão jogando a favor da economia das GPUs. Mais do que isso, a força brutal que a Oracle vem ganhando no campo da IA generativa indica que as projeções que o mercado fez para o crescimento de nuvem da empresa estão pessimistas demais. O controle rígido de custos da gigante de software deve ser o piso seguro para garantir as metas de lucro.

Falando em movimentos de mercado que levam anos sendo construídos para finalmente explodirem, assim como o mercado de tecnologia acompanhou o recém-iniciado e estrondoso movimento de alta da AMD, a Oracle parece ter encontrado seu próprio ponto de inflexão na nuvem.

Bodas de Rubi e Infraestrutura Pura e Dura

Para entender o otimismo de quem aposta na alta do papel, a gente precisa olhar para a casa de máquinas. Estamos em 2026, ano em que a parceria entre a IBM e a Oracle bate a marca histórica de quatro décadas. Eles não estão apenas trocando presentes corporativos, mas expandindo o escopo do negócio para focar pesado na modernização das empresas usando inteligência artificial, agentes autônomos e soluções de nuvem híbrida.

Charles Jenkins e Corinne Koppel, executivos de parcerias e consultoria da IBM, deixaram bem claro o diagnóstico: a ideia é tirar os projetos de IA do purgatório dos testes e jogá-los em produção. O problema histórico das empresas sempre foi a fricção na hora de integrar sistemas e dados em múltiplos ambientes de nuvem.

Na prática, a partir do final deste ano, o Red Hat Enterprise Linux (RHEL) vai desembarcar nativamente na Oracle Cloud Infrastructure (OCI). Adeus àquela burocracia do modelo “Bring Your Own Subscription”. Agora, o cliente vai lá no Oracle Marketplace e provisiona tudo usando os Oracle Universal Credits. A dobradinha não para por aí. O IBM watsonx Orchestrate está injetando Agentes de IA nos sistemas de Talentos e Desenvolvimento do Oracle Fusion Applications. Além disso, tem um novo serviço gerenciado pintando na área para migrar os workloads do IBM Maximo direto para a OCI, permitindo que as empresas rodem isso na mesma nuvem do seu ERP da Oracle, otimizando rede, armazenamento e processamento em tempo real. Greg Pavlik, Vice-Presidente Executivo da Oracle, já tinha cantado essa pedra: o verdadeiro valor da IA só aparece quando ela flui sem atrito pelas engrenagens de toda a operação.

O Cabo de Guerra do Dinheiro Institucional

Mas enquanto a Arete manda comprar e a IBM alinha os servidores, a movimentação das gestoras de fundos conta uma história de certa cautela.

A Winch Advisory Services LLC, por exemplo, decidiu realizar lucro no quarto trimestre. Eles limaram 24% da sua posição no papel, despejando 7.725 ações no mercado. Mesmo assim, continuam sentados em cima de 24.502 ações (algo na casa dos US$ 4,77 milhões), o que mantém a Oracle como a 22ª maior aposta da carteira da gestora. Por outro lado, fundos menores e gestões de fortunas aproveitaram o trimestre passado para catar milho no mercado. Mine & Arao Wealth Creation, Avion Wealth, Allen Capital Group, Noesis Capital Mangement e Greykasell Wealth Strategies deram pequenos aportes nas suas fatias, comprando lotes esparsos de 30 a 40 ações. Somando tudo, os investidores institucionais e hedge funds sentam hoje sobre robustos 42,44% das ações da empresa.

O Movimento dos Caciques

O que realmente deixa uma pulga atrás da orelha vem de dentro de casa. Se os fundamentos são promissores e os analistas estão revendo as projeções para cima, por que os executivos do alto escalão estão embolsando lucros?

O CEO Clayton M. Magouyrk foi ao mercado na segunda-feira, 9 de fevereiro, e liquidou 10 mil ações a um preço médio de US$ 155,23. Bateu no caixa pouco mais de US$ 1,55 milhão. Foi um corte de quase 7% na sua posição pessoal, deixando ele ainda com um belo colchão de 134 mil papéis. A situação fica mais agressiva com o EVP Stuart Levey. No dia 16 de abril, ele se desfez de 15 mil ações a US$ 176,19 cada. Essa machadada de US$ 2,64 milhões pulverizou mais de 81% das ações que ele detinha diretamente na empresa (sobraram meras 3.429), embora tudo isso tenha acontecido debaixo daquele modelo automático pré-arranjado da regra 10b5-1. Apesar dessas vendas polpudas, quem manda na casa ainda é o pessoal do crachá, com insiders corporativos controlando impressionantes 40,90% das ações.